Medição de energia e consumo consciente

A cidade de Barueri, em São Paulo, caminha para ser a primeira do país a ter toda a sua distribuição constituída por redes inteligentes de energia. Num primeiro momento, escritórios e empresas da região serão contemplados com medidores inteligentes e a expectativa é que, no prazo de três anos, a tecnologia também possa ser usufruída pelas pessoas físicas. Trata-se de um movimento que já avança bastante no setor de distribuição para grandes consumidores (indústria e comércio), mas ainda tímido para consumidores residenciais.

Para entender o impacto dessa transformação na vida dos consumidores é preciso compreender primeiro como as concessionárias trabalham em boa parte do país hoje. Os consumidores têm em casa um medidor eletromecânico que parece um relógio analógico. Um profissional conhecido como leiturista passa, uma vez por mês, para ler e analisar os números, calcular quanto de eletricidade foi usado e depois fechar a fatura. Do lado do consumidor, é possível saber apenas quantos kw/h/ foram gastos dentro do período de um mês, mas se desconhece o horário de maior consumo e qual equipamento gasta mais; já do lado da concessionária, para identificar um desvio suspeito no padrão de consumo de um cliente, é preciso precisa esperar pelo menos trinta dias.

Nos últimos anos, surgiram medidores inteligentes capazes de se comunicar com a concessionária remotamente, sem precisar da leitura de um técnico. Além de automatizar o envio de informações para a distribuidora, o equipamento fornece mais dados para o cliente. É esse o modelo que será implantado em Barueri e que vem sendo adotado em larga escala fora do país. Para se ter uma ideia, a Tokyo Electric Power (TEPCO), maior companhia de eletricidade do Japão, ultrapassou 10 milhões de medidores inteligentes instalados. Atualmente, essa rede está transportando dados entre dispositivos a uma taxa de 513 milhões de leituras de intervalos por dia.

Outro atributo valioso das redes inteligentes de energia é que elas permitem a geração distribuída, ou seja, o uso das casas dos consumidores para a geração de energia em pequena escala com a instalação de painéis solares e microgeradores eólicos. Cada consumidor se transforma, assim, em uma miniusina de energia, e as concessionárias pagam pelo excedente gerado. Portugal tem hoje aproximadamente 20 mil consumidores que já são também microgeradores de energia.

Estima-se que o Brasil tenha cerca de 90% dos medidores ainda operando de forma eletromecânica, segundo um estudo de mercado da ABDI. A ausência de uma definição de padrões de interoperabilidade e de segurança impedem maiores avanços em direção ao modelo de redes inteligentes de energia, tornando Barueri uma exceção à regra. Fato é que enquanto não houver clareza e detalhamento sobre quanto, onde e como o consumidor se comporta no dia a dia, jamais haverá um padrão de uso consciente.

Odair Marcondes
Analista de sistemas, diretor de serviços da CAS Tecnologia